A possibilidade de realizar uma etapa do Circuito Mundial (CT) em uma piscina de ondas artificiais, como a idealizada por Kelly Slater, é cada vez mais real. A criação de uma onda artificial perfeita, a primeira tubular produzida pelo homem, era um desejo antigo do onze vezes campeão mundial. Foram muitas as tentativas frustradas para se chegar a uma formação e potência similares às ondas oceânicas, até a invenção do surfista. Mas, o que pode ser o fim da mágica e dos mistérios do esporte, para outros, é uma utopia. Em busca de atingir um maior número de pessoas e contribuir para o desenvolvimento da modalidade, a Liga Mundial de Surfe (WSL) se engajou no assunto, comprou parte dos direitos da Wave Company e planeja realizar uma etapa do Tour em uma piscina de ondas. Apesar de o calendário de 2017 ter mantido na elite as mesmas 11 etapas da temporada passada, o sonho pode virar realidade em 2018. E quem confirma a hipótese é o diretor internacional de eventos da WSL, Graham Stapelberg.

– Ter uma etapa em uma piscina de ondas artificiais é uma possibilidade forte e real. Estamos avaliando inclusive de termos uma etapa do Tour na “Kelly Slater Wave Pool”, é algo que estudamos estudando, uma possibilidade real. Estamos avaliando as possibilidades, analisando todas as venues, com o compromisso de melhorar e ajudar o no desenvolvimento do esporte. O nosso time de comissários está sempre observando as opções em potencial, mas, ainda não há nada oficial na mesa. Temos muito trabalho pela frente – disse Stapelberg.

Em maio do ano passado, a WSL Holdings, empresa-matriz da WSL, anunciou um acordo no qual adquiriu uma participação majoritária na Kelly Slater Wave Company (KSWC), responsável pela revolucionária tecnologia de ondas artificiais. O sonho demorou a sair do papel e passou por um longo período de testes até encontrar a fórmula transformar em realidade a ideia do onze vezes campeão mundial, depois de 10 de trabalho em segredo. A parceria entre a WSL e a KSWC tem como objetivo promover o crescimento do surfe de alto desempenho no mundo e abre um leque de possibilidades para o futuro do esporte, porém, há divergência de opiniões.

– Eu prefiro o mar, a relação com a natureza. Eu gosto de ter que me posicionar para descobrir o que a natureza vai me enviar. Numa piscina, teremos sempre ondas, será ótimo para a TV, para as olimpíadas , e acredito que ate seria interessante num futuro termos uma etapa do CT, mas nada substituirá as ondas do mar – comentou Adriano de Souza, campeão mundial de 2015.

Seria uma utopia ou o fim da mágica do esporte? A pergunta é recorrente e ainda gera polêmica. Para o americano, a essência é mesclar um pouco de ambos os conceitos.

– Para mim, o surfe sempre será a aventura, as viagens e o mar, mas essa onda trará novas oportunidades para o esporte, sem sacrificar o lado fundamental e de alma que nos atrai para o surfe. Surfar ondas incríveis num ambiente controlado acrescenta uma nova dimensão para o nosso esporte. Não vai ter ninguém te rabeando e se estressando sobre quem pegou a melhor onda, pois todas na piscina são boas. Então todo mundo poderá relaxar, se divertir e se concentrar em como melhorar o seu próprio surfe – afirmou Slater, após o lançamento do projeto.

A WSL cogita uma rede global de centros de treinamento usando a tecnologia, o que possibilita a prática do surfe mesmo nos lugares onda não há ondas. O projeto inclusive foi apresentado como uma alternativa para os Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 – os organizadores cogitaram o modelo, no entanto, optaram por realizar a disputa em Chiba, cidade vizinha à capital japonesa, onde estão concentrados os principais surfistas do país do sol nascente.

Para Slater, a parceria entre a entidade e a KSWC, além de um sonho, promove uma maior democratização do surfe, já que é capaz de atingir um maior número de pessoas, disseminando o esporte em lugares até então inimagináveis.

– Ver essa parceira inédita com a WSL e possibilitar o avanço global deste esporte maravilhoso, vai além dos meus sonhos. Isso vai democratizar o surfe e proporcionará oportunidades incríveis em relação ao treinamento dos atletas, além de incentivar futuros praticantes em lugares sem acesso ao mar – acrescentou o onze vezes campeão mundial.

A WSL representa quase dois mil surfistas, seja na elite ou na divisão de acesso do surfe, assim como em disputas de ondas grandes, longboard e pela categoria júnior, para atletas até 18 anos. A tecnologia é flexível e aplicada em ondas iguais, o que permite aos seus praticantes atingir um nível elevado de desempenho, com o auxílio de câmeras e sensores em ângulos variados. É algo que contribui tanto para a evolução dos atletas no alto rendimento, como para o desenvolvimento de surfistas iniciantes e intermediários.

Embora o surfe seja um esporte que dependa da natureza, com as piscinas artificiais, não há mais o problema da falta de ondas. A viabilidade de criar uma grande arquibancada no entorno do local de disputa também é atraente, porém, a mágica e o mistérios do oceano jamais perderão o seu espaço, e a intenção é sempre buscar as melhores ondas mundo afora.

Expandir os horizontes é uma meta constante da WSL. Segundo Graham Stapelberg, a entidade tem estudado uma série de possibilidades para o futuro. Além de cogitar etapas em lugares da América do Sul e Central, a Indonésia também está nos planos. O sucesso de etapas do QS em locais como ilhas Mentawai, Nias e Keramas, em Bali, reforçou a hipótese de se realizar uma etapa pela elite em um dos picos mais perfeitos do mundo. Nada foi definido, porém, é muito provável que uma novidade seja confirmada em 2018.

– Às vezes, usamos o QS como ponto de partida para avaliar o ambiente, entender a dinâmica do local, os desafios e a viabilidade de realizar um campeonato naquele local. A Indonésia tem grandes ondas, assim como em praias da Ásia, da América do Sul e Central. Estamos estudando os cenários e cogitamos ter novamente uma etapa na Indonésia ou em algum lugar da América do Sul no CT. Nós estamos sempre tentando melhorar, buscando o desenvolvimento do surfe, avaliando as possibilidades e as oportunidades que surgem. O QS pode ser um ponto de partida para desenvolver um evento no CT. Mas queremos fazer grandes campeonatos tanto no QS e como no CT – disse Graham.

Enquanto a WSL não confirma oficialmente a realização de uma etapa na Kely Slater Wave Company, só nos torcer pelo palco ou pela inclusão de outros picos de sonho no Tour em 2018.