Pela primeira vez, o surfe fará parte do programa olímpico, sonho antigo de muitos surfistas. Os Jogos de Tóquio 2020 ganharam ainda a inclusão do skate, escalada, caratê, beisebol e softbol, mudança proposta pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). Na última década, o Brasil se firmou de vez como uma das grandes potências do surfe, ao lado de Havaí, Estados Unidos e Austrália, e é um dos candidatos ao ouro. Em 2014, Gabriel Medina conquistou o histórico título mundial e quebrou uma hegemonia de 38 anos dos países com tradição no esporte. O feito se repetiu no ano seguinte, com Adriano de Souza, o Mineirinho, que havia sido o primeiro brasileiro a liderar o ranking mundial. A Liga Mundial de Surfe (WSL), que representa dois mil surfistas profissionais, incluindo a elite e a divisão de acesso, os liberou para o maior evento esportivo do mundo e declarou o seu apoio ao COI e à ISA (Associação Internacional de Surfe).

A popularidade entre os jovens foi determinante para a decisão do COI. O aumento da audiência e a possibilidade de atrair potenciais patrocinadores também foram levados em conta.

– Queremos levar o esporte para a juventude. Com as muitas opções que os jovens têm, não podemos esperar mais que eles passem automaticamente para nós. Temos que ir até eles – disse Thomas Bach, presidente do COI.

O QUE PENSAM OS SURFISTAS

Mineirinho, Medina e Filipe Toledo, o Filipinho, foram alguns dos brasileiros que comemoraram a novidade.

– Será incrível ver o surfe nas Olimpíadas. Temos grandes chances de ser ouro lá, portanto, se eu não estiver na água competindo, vou estar na beira do mar torcendo para os brasileiros. Acho que vai ser um grande evento para nunca mais esquecer, então eu quero muito participar, ou na água ou na praia, quero estar lá em 2020 – disse Mineirinho, campeão mundial e primeiro do país a vencer o Pipe Master em 2015.

Kelly Slater, onze vezes campeão mundial, cogita disputar a Olimpíada, mesmo com a idade avançada. O americano terá 48 anos e não sabe se ganhará uma das duas vagas por país, principalmente, pelo fato de ter de brigar por um lugar ao sol com surfistas jovens como John John Florence – se na WSL, o atual campeão mundial defende a bandeira havaiana, considerado um país no surfe, nos Jogos, ele representará os Estados Unidos.

– Ainda faltam quatro anos. Haverá vários jovens talentosos e apenas duas vagas por país. Para os Estados Unidos, acho que uma delas será para John John Florence, então acho que só vai sobrar uma para mim. Vou ter que estar competitivo no momento certo. Não sei o quanto vou estar comprometido no esporte daqui a quatro anos, mas por que não? Há dez anos, não imaginava que ainda competindo até hoje. Não cresci sonhando em ganhar uma medalha de ouro porque não imaginava que o surfe pudesse ser esporte olímpico um dia. Agora, todos os jovens surfistas podem sonhar com o ouro olímpico e acho isso muito legal – comentou Slater.

A aprovação do surfe foi unânime em uma votação realizada em 3 de agosto, em um hotel no Rio de Janeiro. A modalidade só foi incluída para Tóquio 2020 e não há garantia de permanência. Para Filipe Toledo, a incorporação do surfe no programa olímpico é sinônimo de crescimento.

– É muito legal saber que o surfe está crescendo e vai fazer parte das Olimpíadas de 2020 no Japão. Vai ser muito legal para o esporte e o surfe, legal também para os surfistas e as marcas. Eu acho que vamos ter que trabalhar bastante agora para chegar lá, treinar muito mais, e isso vai ajudar a gente tanto no CT, como para melhorar nosso potencial para poder estar nas Olimpíadas de 2020 – explicou Filipinho.

A WSL permitiu que os profissionais participem dos Jogos, e caberá ao surfista decidir se tem ou não interesse de entrar na corrida olímpica e batalhar por uma das duas vagas por país.

– A WSL tem trabalhado incansavelmente para fornecer oportunidades para todos os seus surfistas se desenvolverem e também para expandir a participação global no esporte. Estamos muito animados com a decisão do COI e já ansiosos pelo que isso significa para o futuro do surfe – disse Kieren Perrow, comissário da WSL.

Filho de japoneses e primeiro asiático a ingressar na elite, o americano Kanoa Igarashi sonha em conquistar o ouro olímpico para orgulhar o Japão e os Estados Unidos. Os pais imigraram para o país em busca de melhores condições de vida e apostaram tudo no futuro do californiano como surfista profissional. Para vice-campeão do Pipe Masters de 2016, nada melhor do que ver o esforço recompensado na terra do sol nascente.

– O surfe está em alta. Eu sou japonês, então, eu fico muito animado, não só por mim, mas pela minha família e pelo esporte. Acredito que eu tenha uma chance. As Olimpíadas são consideradas um dos maiores eventos de esporte no mundo e eu espero fazer parte – contou Kanoa Igarashi.

Nascida em Porto Alegre (RS) e criada na ilha de Kauai, a havaiana-gaúcha Tatiana Weston-Webb também manifestou o desejo de estar no Japão.

– Eu iria amar fazer parte dos Jogos. Estar no meio de todos aqueles atletas seria um sonho realizado e um prazer. E se eu ganhar uma medalha será ainda mais incrível. Eu adoraria representar o meu país – contou Tati, que defende a bandeira do Havaí no “Circuito dos Sonhos”.

MAR VENCE PISCINA ARTIFICIAL

Embora não saiba se irá competir em Tóquio 2020, Slater desenvolveu em segredo um projeto de ondas artificiais, por quase uma década. A estrutura virou um modelo, após muitas tentativas falhas. A empresa Kelly Slater Wave Company (KSWC), lançou a piscina oficialmente em dezembro de 2015. A perfeição da onda, com a possibilidade de tubos e uma parede para executar manobras é um meio de lazer e uma alternativa para países onde as condições não são favoráveis à prática do esporte. Desde maio do ano passado, Kelly tem convidado grandes nomes do surfe para experimentar a “onda dos sonhos”. Apesar de caro, este poderia ser um cenário para os Jogos, já que em Tóquio as ondas não são boas. A organização, no entanto, descartou a hipótese e determinou que os 40 atletas (20 em cada gênero) competirão no mar.

O local escolhido foi Chiba, cidade vizinha a Tóquio, a cerca de 40 quilômetros e com ligação ferroviária até a capital nipônica. É ali onde estão concentrados os surfistas profissionais da terra do sol nascente, sendo também conhecida pela Praia Inage, a primeira artificial do Japão. Na costa de Chiba, ainda está a praia de Shida Point, que sediou uma etapa pela divisão de acesso (QS) da WSL na temporada de 2016 e outra pela elite em 2005. Outras praias candidatas a receber o surfe eram Shonan, com uma bancada formada por corais e rochas, Aichi, que recebe ondulações maiores, Akabane Long Beach e Tokushima.

REGRAS E FORMATO DA DISPUTA

As disputas de longboard, bodyboard e stand up paddle não foram incluídas no programa olímpico, apenas o surfe de prancha padrão. O campeonato será realizado em dois dias dentro de uma janela de duas semanas. A qualificação olímpica do surfe será definida pelo COI, com base nos moldes de outras modalidades. A ideia do Comitê Organizador não é apenas incluir as potências, mas também os países sem representantes na elite. Para uma modalidade marginalizada até meados dos anos 1990, este é um sinal de reconhecimento e evolução. A avaliação no surfe é subjetiva, mas se apoia em critérios como empenho, grau de dificuldade, variedade e combinação de manobras, velocidade, potência, fluidez, inovação e progressão.

As regras na Olimpíada de 2020 seguirão o padrão da ISA, diferentemente das competições da WSL, que funcionam como um campeonato de pontos corridos pelas etapas em lugares como Austrália, Brasil, Fiji, África do Sul, Taiti, EUA, França, Portugal e Havaí. Cada uma é dividida em oito fases, e as baterias, com dois a quatro surfistas duram, geralmente, 30 minutos. Caso necessário, o tempo pode aumentar para 35 ou 40 ou ser em um sistema de “dual heat”, formato com duas baterias simultâneas. O campeão e o vice ganham troféus. Se na WSL os atletas competem individualmente, na ISA, há disputa individual e por equipes. Os atletas são convocados como uma seleção em uma espécie de “Olimpíadas do surfe”.  O formato é distinto, com mais atletas e até quatro competidores por bateria. Na final, os quatro primeiros recebem medalhas de ouro, prata, bronze e cobre.

A WSL e a ISA assinaram um acordo de colaboração que acabou com a indefinição sobre quem iria tomar a frente no controle do esporte e nos critérios de classificação olímpica. Como primeira medida, a Liga Mundial de Surfe liberou estrelas como Gabriel Medina e John John Florence a participarem dos eventos ISA, a começar pelo Mundial de 2017, entre os dias 21 e 28 de maio, em Biarritz, na França, que não entrará em conflito com o calendário do ano na elite.

– Todo o atleta sonha com isso. É uma felicidade enorme ganhar uma medalha. Tomara que eu possa estar no Japão – afirmou Medina

DOPING TERÁ MUDANÇAS

A questão do doping no meio do surfe não foi citada pelo Comitê Organizador, porém, com a inclusão no programa olímpico, é certo que sofrerá mudanças. Nas disputas chanceladas pela WSL, por exemplo, há uma tolerância para maconha e cocaína. O uso das chamadas drogas recreativas é passível de punição a partir do terceiro flagra. Nas duas anteriores, o atleta é advertido e encaminhado para um programa de reabilitação. As punições na elite, no entanto, são raras. Em 10 anos, a Liga suspendeu só dois surfistas por usarem substâncias que melhoram o rendimento. Por outro lado, com o uso de esteroides para incrementar o desempenho, basta o surfista ser flagrado uma única vez para receber uma severa punição.

A questão envolvendo os exames antidoping no surfe é polêmica. Até hoje, nenhum surfista jamais foi suspenso pelo uso de maconha ou cocaína. E apenas dois – os brasileiros Raoni Monteiro, no ano passado, e Neco Padaratz, em 2005, foram suspensos por uso de substâncias para melhoria de rendimento. A WSL afirma realizar diversos testes antidoping de surpresa com alguns surfistas selecionados durante as 11 etapas anuais do Circuito Mundial. As amostras dos exames são analisadas por laboratórios credenciados pela Agência Mundial Antidoping (Wada).

Texto por Globoesporte.com